O INTELECTUAL E SEUS FANTASMAS
                                                

                                                                                Eduardo Portella


    

A figura do intelectual emerge no marco das Luzes, e é fácil escutar, como
trilha sonora renitente, ou estridente, os estertores da Revolução Francesa. Hesito
em falar da situação do intelectual hoje. Talvez seja mais apropriado mencionar a  falta de situação, de lugar razoavelmente recortado, ou de ausência, vazio ou
incomodidade. Seria ele o sobrevivente de si mesmo, o entreparêntese, o
prestador de serviços inorgânicos? Em todo caso, algo bem distante da
luminosidade que exibiu em dias de triunfo. Como fator agravante, vale observar
que os últimos gutembergianos e os primeiros intemautas não conseguiram
assinar, pelo menos até o presente momento, um acordo de cavalheiros.

    I
    

    O intelectual já foi o profeta, sermonista aplicado, que se dedicava a
profecias infalíveis, e prometia paraísos que só muito depois constatamos serem
artificiais. Ele também foi o messias, investido de indiscutível programa
salvacionista. Os programas não se cumpriram e a salvação ficou adiada sine die.
Ambos foram atirados na vala comum do descrédito. O intelectual foi igualmente o
guru mais ou menos desempregado, e em algumas culturas desdobrou uma
inflexão esotérica nada confiável.
    O sistema oficial de transmissão do saber entronizou e canonizou a figura
do intelectual na sua fórmula ilustrada. Aquela que ostenta, não a consciência
partilhada, revigorada no contato com os outros - porém a consciência dobrada
sobre si mesma. Os derradeiros depositários dessa consciência plena conservaram
sempre a fala sentenciosa, e freqüentemente enganosa, do humanismo
filantrópico.
    Os traços fisionômicos desse intelectual moderno, que se tornaram
familiares pelo menos desde Voltaire, vão perdendo, a cada hora, os seus
conhecidos contornos identitários. Por auto-suficiência e conseqüente isolamento.
O detentor da última palavra vai se transformando no protagonista demissionário.
Sartre preservou o seu protagonismo porque nele o trabalho da consciência, da
linguagem, se bateu o tempo todo por transpor as muralhas do eu individual.

    II

    Hoje, na cena conturbada da baixa modernidade, o intelectual se junta ao
político, como atores sociais descartáveis. O primeiro, por falta de audiência; o
segundo, por falta de credibilidade. Ambos se encontram na UTI do espírito, com
modestas chances de recuperação. Mesmo assim nada nos autoriza a aceitar o
fato consumado. Ninguém sai ganhando com essas duas perdas.
    Poder e audiência são, agora mais do que nunca, termos correlatos. A
passagem talvez se encontre entre o poder desfigurado e a audiência manipulada.
A passagem é ainda uma porta estreita, porém é uma porta. E isto pode acontecer
quando o intelectual se afasta dos seus próprios fantasmas, retoma os caminhos
do pensamento, reinventa ou reencontra a ética da convivência.
    Persistem algumas turbulências no horizonte da reflexão-ativa. Precisamos
rever os nossos instrumentos críticos. O intelectual deste fim de milênio parece
aquele aparelho atingido em pleno vôo. Quando comemorava os ganhos da
especialização pura foi surpreendido pelo vigor da complexidade, inscrito na
aventura humana e, até segunda ordem, na história, na sociedade, no saber, em
todos os lugares protegidos contra a apropriação monodisciplinar.
    O traçado sinuoso desse percurso insólito tem algumas paradas obrigatórias:
    - Com a Revolução Francesa se cristaliza e prosperará a idéia do
intelectual público, modelo Voltaire, versão Sartre, transformador, subversivo, em
qualquer hipótese inconformista.
    - Com a modernidade urbanizada o intelectual se afirma como
encarnação e intérprete da cidade, sensível aos mínimos passos do "homem da
rua". Essa trepidação urbana, veloz e cada vez mais dessingularizadora, foi
registrada em textos emblemáticos de Edgar Allan Poe e Charles Baudelaire.
    - Com a propagação do ideário revolucionário, o intelectual,
reconhecendo "o papel das mediações ético-culturais (Michael Löwy), não vacilou
em "sujar as mãos" (como se disse) no dia a dia da contenda social.
    - É quando avança o desempenho do intelectual partidarista,
reconhecidamente "orgânico", servidor dedicado ou inflamado da causa
revolucionária, estendendo-se diversificadamente até os desenlaces e as
fragmentações da segunda metade do século.
    As "ilusões perdidas", as certezas abandonadas, denegariam, de uma vez
por todas, os sonhos das construções plenas e acabadas.

    III


    Bernard-Henri Lévy procurou recentemente reconstituir o perfil do intelectual
padrão, exemplo e referência desta espécie, provavelmente em extinção, no seu
Le Siècle de Sartre (Paris, Grasset, 2001). O livro, talvez seja a afetuosa elegia ou
o simples réquiem para o intelectual defunto. Indisfarçável nostalgia, solidariedade
tão paradoxal quanto inútil, perpassam as suas páginas. Às vezes ficamos sem
saber onde estamos: se do lado de Sartre ou contra Sartre. Ao mesmo tempo em
que nos fala de Sartre como a representação superior da "generosidade", ele nos
revela o Sartre "cruel" -  cruel até para consigo mesmo. Sartre destrói os amigos
em vida para ressuscitá-Ios afetuosamente depois de mortos. Foi assim com
Maurice Merleau-Ponty, com Paul Nizan, com Albert Camus. Sartre seria o
especialista em discursos póstumos pretensamente compensatórios. Polêmicas
implacáveis diante de vivos perplexos e tocante complacência diante de corpos
silenciados. Há sempre um outro, que conduz o intelectual no limite do extermínio e
da redenção possível. Como se o intelectual nunca pudesse viver, ou sobreviver,
sem os seus fantasmas.
    Não sei. Mas chego a supor que, em que pese a retórica apologética de
que se serve Lévy, Sartre sai bastante ferido dessas estranhas páginas de
louvação. Acidente de percurso? Queima de arquivos? Acerto de contas? Crime perfeito? Não sei, não. Mas é difícil resistir à impressão predominante de que o
autor não quis ou não soube evitar o extermínio generalizado da condição de
intelectual, em tempos de cólera. .
    Bernard-Henri Lévy nos indica vários Sartre, ao longo de uma jornada
ciclotímica, entre crispada e crivada. Há um Sartre inicialmente heideggeriano,           que ele descreve em nota loquaz ("Note sur Ia question Heidegger", ps. 181 a 217), talvez inflamada, porém pouco reveladora. É o "mau" Sartre. Há um capítulo final
sobre "Sartre avec Lévinas" (p.652), onde ele afirma textualmente: "Ce dernier
Sartre est lévinassien" (p. 654). Este é o "bom" Sartre.
    O livro de B.H.L. é um livro que dialoga, debate incessantemente com o
judaísmo, sua genealogia e suas sucessivas representações, suas revelações e
seus mal-entendidos. Não seria de todo desbaratado imaginar-se que o autor usou
diferentes interlocutores, os que circulam através destas páginas, para discutir a
questão judaísmo, aqui e agora. E ainda para impugnar, nem sempre com razão, o
filósofo Martin Heidegger. Especialmente quando projeta o episódio político sobre o
conjunto do pensamento do autor de Ser e Tempo. Bem mais elucidativo da
recepção de Heidegger na França são os dois volumes de Dominique Janicaud,
Heidegger en France, recentemente publicados por Albin Michel (2001). Aí, a
paixão da imparcialidade jamais chega a nos conduzir, como costuma ocorrer
nessas ocasiões, à parcialidade sem paixão.

    IV

    Bernard-Henri Lévi classifica Jean-Paul Sartre como o intelectual absoluto,                     sem se aperceber que tudo o que é absoluto pertence hoje ao reino do fantasmal.
Segundo ele, Sartre teria ganho, com todos os méritos diga-se de passagem, "a
posição de intelectual absoluto" (ps. 28, 37, 180). E não vacila em designar, sob os
auspícios da plenitude ou da totalidade, a "Igreja Sartre". Diga-se o que se disser,
Sartre nunca seria um credo. Foi, antes, uma agenda de debates - "a aventura
complicada, paradoxal, perturbada", que o próprio Lévi soube reconhecer. Pode
alguém, nos tempos modernos, ser intelectual se não trouxer consigo essa
desolação irreparável? Tudo indica que não.
    A esta altura, seria a hora de perguntarmos o que persiste do corte oracular,
precocemente institucionalizado, do intelectual moderno. A primeira resposta não
seria das mais favoráveis. Persiste, deslocada, a velha pose sacerdotal, presente
ainda na maioria das diversas falas, como se repetisse, em versão menos
arrogante, os velhos tiques nervosos dos déspotas esclarecidos. A eles se juntam
a nostalgia do todo e a resistência decrépita da consciência plena. O culto da
totalidade nunca deixou de ser o persistente fantasma do intelectual, ou o próprio
intelectual enquanto fantasma. A segunda resposta não é mais animadora. Persiste a impostação salvacionista, autolegitimadora, que reproduz o seu registro
de origem. No fundo falso da história, o original se repete como farsa. A terceira
resposta busca recuperar alguma coisa do otimismo esmigalhado. Entende que o
intelectual referência, panteonizado, efeméride nacional, morreu, sem dúvida a
contragosto, com Jean-Paul Sartre, e desapareceu em meio à multidão que, entre
contrita e desatenta, acompanhou a Cérémonie des Adieux. O prestígio e a
prestidigitação da consciência, o mandato cheque em branco do soberbo, depôs as
suas armas.
    Agora, não sei se resignado ou infeliz, mas certamente despojado de suas
vestes talares e de suas luzes imperiais, o intelectual finissecular foi reduzido a um
ator social a mais na cena multitudinária da sociedade baixo-moderna. Não é
pouco. Somente seria pouco se comparado com o muito de que já dispôs. Mesmo
assim, nessa fronteira imprevisível, os fantasmas não foram de todo dissipados.

* Texto discutido na PG/FL/UFRJ, mimeo., 2001.

in Revista Tempo Brasileiro, 145, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 2001.